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Como escolher o ponto comercial: guia para restaurantes, bares e lanchonetes

Um aluguel acima de 10% do faturamento raramente é recuperado. Ele não quebra a casa no primeiro mês, e é por isso que engana: o salão enche na sexta, o movimento parece bom, e mesmo assim sobra pouco no fim do mês. Todo mês, pelos cinco anos do contrato.

A maioria das escolhas de ponto comercial acontece na ordem errada. O dono visita o imóvel, gosta da calçada movimentada e só então pergunta o preço, negociando em cima do que o corretor pediu e não em cima do que o negócio aguenta pagar.

Escolher o ponto comercial é fazer três verificações antes de gostar do lugar: quanto cabe no orçamento, se o imóvel aceita uma cozinha profissional e se a prefeitura libera a atividade ali. Movimento entra depois. E quando o movimento é o único argumento a favor, o ponto está caro.

O que é ponto comercial

Ponto comercial é o endereço onde a empresa funciona somado ao valor que esse endereço acumulou: clientela formada, reconhecimento do lugar, reforma paga e contrato de locação em vigor. Esse conjunto tem nome no Código Civil, estabelecimento empresarial, e tem valor de mercado próprio, separado do imóvel.

Na prática, você paga mais por um endereço que já tem público e menos por um que ainda precisa construir esse público. As duas contas fecham. O erro é pagar preço de ponto formado por um ponto que ainda não é nada.

Quanto seu restaurante pode pagar de aluguel

As referências de mercado colocam o aluguel de um restaurante entre 5% e 10% do faturamento mensal. Abaixo disso é folga. Acima disso, o negócio passa a trabalhar para o dono do imóvel.

O que pesa no caixa é o custo de ocupação: aluguel, IPTU, condomínio, taxa de bombeiros, seguro e, em shopping, fundo de promoção e percentual sobre vendas. Some tudo e trabalhe com teto de 12% do faturamento projetado.

Faça essa conta antes de visitar qualquer imóvel. Um restaurante que projeta faturar R$ 90.000 por mês tem teto de ocupação de R$ 10.800, o que coloca o aluguel puro entre R$ 7.000 e R$ 8.000. Um imóvel de R$ 14.000 está fora, por melhor que seja a esquina.

O aluguel é o mais fixo dos custos fixos: não cai em mês fraco. Quem já tem uma casa aberta e procura a segunda nem precisa projetar, porque o faturamento médio dos últimos seis meses já está no relatório do sistema.

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Como medir o fluxo de pessoas de um ponto comercial

Você mede contando. Sente na calçada em frente ao imóvel, marque 15 minutos no celular e conte quantas pessoas passam. Repita em três dias diferentes, sendo um deles fim de semana, sempre nos horários em que o seu restaurante vai estar aberto. Multiplique a média por quatro e você tem a passagem por hora.

Mas é importante entender que passagem não vira venda sozinha. Existe diferença entre fluxo de passagem, gente que atravessa aquele trecho a caminho de outro lugar, e fluxo de destino, gente que foi até ali para consumir. Uma saída de metrô às 18h tem passagem altíssima e conversão baixa para almoço executivo.

Quatro jovens entrando em restaurante de fachada de madeira e paredes de tijolo, com mesas externas ocupadas à esquerda, ilustrando o movimento de clientes num ponto comercial.

Anote também quem é essa gente que passa. Um ponto com 400 pessoas por hora correndo para o ônibus vale menos, para um restaurante de mesa, que um quarteirão residencial com 120 pessoas por hora que janta fora duas vezes por semana. Faça o mesmo dentro dos concorrentes: sente, peça alguma coisa e conte as mesas ocupadas às 12h30 e às 20h.

Guarde muito bem essa contagem. Meses depois, o relatório de vendas por horário do sistema ControleNaMão mostra se a rua entregou o que você contou na calçada.

Concorrência perto do ponto: quando ajuda e quando atrapalha

Concorrência perto ajuda quando forma um polo gastronômico e atrapalha quando alguém consolidado vende exatamente a mesma coisa a 50 metros. A diferença está na variedade, não na quantidade.

Uma rua com dez restaurantes de tipos diferentes é um destino: as pessoas vão até lá sabendo que vão comer bem em algum lugar e decidem qual na hora. Se a rua já tem três pizzarias e você pretende abrir a quarta, a conta só fecha com preço melhor, produto diferente ou um horário que ninguém cobre.

Fila na porta e salão vazio às 15h mostram demanda represada no pico. Isso é oportunidade para quem chega ocupando o buraco, não para quem repete o mesmo prato no mesmo horário.

O que verificar no imóvel antes de assinar o contrato

Verifique a estrutura que uma cozinha profissional exige, porque é ela que decide se a reforma custa R$ 30 mil ou R$ 150 mil. Um imóvel que foi loja de roupa não tem quase nada do que um restaurante precisa, e o desconto no aluguel raramente cobre a diferença. Leve um eletricista e alguém que entenda de instalação de cozinha na segunda visita.

Item O que verificar na visita Impacto
Rede elétrica Carga disponível no padrão de entrada e existência de rede trifásica Alto
Exaustão Se há caminho para o duto subir acima da cobertura e se o condomínio autoriza a passagem Alto
Ponto de gás Ligação com a rede de gás natural ou área externa ventilada e acessível para os botijões Alto
Caixa de gordura Se existe, onde fica e se dá para limpar sem quebrar piso acabado Alto
Água e esgoto Pressão da água, volume do reservatório e pontos de esgoto perto de onde a cozinha vai ficar Médio
Banheiros Quantidade exigida pelo município para a lotação pretendida e banheiro acessível Médio
Área de lixo Espaço fechado e separado do preparo para guardar resíduo até a coleta Médio
Carga e descarga Se o caminhão do fornecedor consegue parar e se a entrega passa por dentro do salão Médio
Fachada Regra do município para letreiro e restrição do condomínio ou de tombamento na região Baixo

A exaustão é o item que mais derruba negociação em cima da hora. A ABNT NBR 14518, norma de ventilação para cozinhas profissionais, exige sistema exclusivo com coifa e filtros de gordura removíveis, e a RDC 216 da Anvisa exige ambiente de cocção livre de fumaça. Cozinha sem exaustão adequada é motivo de interdição, e em imóvel sem caminho para o duto a solução costuma ser cara.

A rede elétrica vem logo atrás. Uma fritadeira elétrica acima de 5 kW já costuma pedir 220V e trifásica, e a casa roda com fritadeira, forno, câmara fria e ar-condicionado ao mesmo tempo. Como a escolha entre equipamento a gás e elétrico muda o que exigir do padrão de entrada, decida isso antes de fechar o imóvel.

A prefeitura pode barrar o seu restaurante naquele endereço?

Pode, e barra com frequência. Cada município tem uma lei de uso e ocupação do solo que define quais atividades funcionam em qual zona, e nem todo endereço comercial aceita restaurante, bar ou casa com música ao vivo. Quem responde isso é a consulta prévia de viabilidade, feita no portal da Redesim ou no site da prefeitura, informando endereço e CNAE da atividade.

A consulta é gratuita e sai em poucos dias na maioria dos estados. Faça antes de pagar sinal, luvas ou projeto.

Depois vêm as licenças que dependem do imóvel. A vigilância sanitária avalia a cozinha pela RDC 216/2004, e o Corpo de Bombeiros exige o auto de vistoria, que em prédio antigo pode significar saída de emergência, iluminação e sinalização que ninguém tinha na conta. Em rua residencial ainda entra a lei municipal de ruído, motivo real do fechamento de muito bar.

Existe uma proteção barata: cláusula condicionando a validade do contrato à liberação do alvará, com devolução dos valores pagos se a licença for negada. Peça sempre. Locador sério aceita.

Contrato de locação: prazo, luvas e como proteger o ponto

Assine cinco anos. A Lei 8.245/91 deixa o locatário comercial renovar o contrato judicialmente mesmo contra a vontade do proprietário, e o artigo 51 lista as condições:

  1. Contrato escrito e por prazo determinado. Acordo verbal ou contrato prorrogado por prazo indeterminado não dá esse direito.
  2. Cinco anos de locação, que podem ser a soma de contratos escritos seguidos no mesmo imóvel.
  3. Três anos na mesma atividade. Trocar de ramo no meio do caminho zera a contagem.

O prazo da ação renovatória é curto e não perdoa atraso: entre um ano e seis meses antes do fim do contrato. Perdeu a janela, perdeu o direito. Marque no calendário no dia da assinatura.

As luvas, valor pago para entrar no ponto, são legais na contratação inicial, não são restituíveis e não abatem aluguel. Na renovação compulsória a cobrança é nula pelo artigo 45, e muito locador tenta assim mesmo.

Duas cláusulas saem caro depois. A de benfeitorias, que ao dizer que toda obra fica no imóvel sem indenização transforma a sua reforma de R$ 120 mil em patrimônio do locador. E a carência: obra e licenciamento levam de dois a quatro meses, e pagar aluguel cheio de porta fechada é dinheiro jogado fora. Em shopping a lógica muda, porque o artigo 54 dá ao empreendimento liberdade para definir o mix de lojas e o direito ao ponto fica mais frágil.

Vale a pena passar o ponto de outro restaurante?

Vale quando você compra estrutura pronta e clientela real, e não vale quando compra o problema que fez o dono anterior desistir. A diferença aparece na auditoria, não na conversa.

Um restaurante em funcionamento economiza meses e muito dinheiro: cozinha instalada, alvará emitido, exaustão aprovada, público acostumado a comer ali. O risco vem junto.

Passar o ponto costuma ser um trespasse, a venda do estabelecimento de um CNPJ para outro. O Código Civil exige contrato escrito e determina que o comprador responde pelas dívidas anteriores regularmente contabilizadas, com o vendedor solidariamente obrigado por um ano. Débitos trabalhistas e tributários seguem regras próprias e podem alcançar o comprador mesmo fora da contabilidade. O mesmo código proíbe o vendedor de abrir concorrente por cinco anos, salvo autorização expressa.

Antes de fechar, levante:

  1. Certidões negativas da empresa e dos sócios nas esferas trabalhista, fiscal e cível
  2. O contrato de locação atual, se é transferível e se o locador dá anuência por escrito
  3. Quanto tempo falta de contrato e se o vendedor já cumpre os requisitos da renovatória
  4. Alvará, licença sanitária e auto de vistoria do bombeiro, em dia e transferíveis
  5. Faturamento dos últimos doze meses comprovado por extrato, notas fiscais e relatório do sistema de gestão, nunca pelo número que o dono fala de cabeça
  6. O motivo real da venda, checado com fornecedores e comerciantes vizinhos

O último item é o mais importante e o mais ignorado. Ponto que passa de mão três vezes em cinco anos está dizendo alguma coisa, e quase nunca é boa. Contrate um advogado empresarial para redigir o contrato: a economia de fazer sozinho é ridícula perto do passivo que pode vir junto.

Como o delivery mudou a escolha do ponto comercial

O delivery trocou vitrine por raio de entrega. Para quem vende a maior parte pelos aplicativos, o que importa é quantos clientes estão a 20 minutos de moto da cozinha, e não quantas pessoas passam na calçada. Isso muda o cálculo do aluguel inteiro.

Um imóvel de fundos, sem fachada, em rua de segunda linha mas cercado de prédios residenciais, pode entregar mais pedidos por real de aluguel que uma esquina cara na avenida. É a lógica da dark kitchen: a visibilidade que viria da fachada passa a ser comprada dentro do aplicativo.

Nesse caso, olhe densidade residencial no entorno, vaga rápida para o motoboy e barreiras físicas. Rio, viaduto e linha de trem cortam o mapa e derrubam a área que você atende de verdade, mesmo com o raio bonito no desenho.

Operação mista precisa decidir qual canal manda. Quem vende 70% no salão paga por localização. Quem vende 70% no app paga por metro quadrado barato e investe a diferença em embalagem, foto de produto e delivery próprio. Tentar as duas com orçamento de uma resulta em aluguel caro e cozinha apertada.

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Como saber se o ponto foi uma boa escolha depois de abrir

O fechamento do primeiro trimestre responde. O ponto foi bom se o custo de ocupação ficou dentro da faixa projetada, se as vendas se distribuem pelos dias e horários que você planejou e se a origem dos pedidos confirma o público imaginado.

O primeiro é aritmética. Divida o custo de ocupação do mês pelo faturamento do mês. Deu 9%, o ponto está pago. Deu 16%, você tem um problema que não se resolve cortando guardanapo, e sim aumentando faturamento ou renegociando o contrato. Os dois números saem do próprio sistema: o PDV registra a venda, o financeiro lança aluguel, IPTU e condomínio.

Mãos segurando tablet com painel de analytics que exibe 4.769 vendas e faturamento de R$ 104.687,54, com mesas e clientes de um restaurante visíveis ao fundo.

Os outros dependem de dado de venda, não de impressão. Muita casa descobre no relatório que terça e quarta respondem por quase nada, ou que o almoço nunca apareceu porque o escritório do quarteirão adotou home office. No ControleNaMão, o CNM Analytics separa o faturamento por dia da semana e por horário e mostra o ticket médio de cada canal, o que permite comparar a promessa do corretor com o que a região gera de fato.

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Perguntas frequentes sobre ponto comercial

Quanto o aluguel deve representar do faturamento de um restaurante?

As referências de mercado apontam entre 5% e 10% do faturamento mensal, e até 12% considerando o custo de ocupação completo, que inclui IPTU, condomínio, seguro e taxas. Um restaurante que projeta faturar R$ 90.000 por mês deveria buscar aluguel entre R$ 7.000 e R$ 8.000, reservando o restante para as despesas do imóvel.

O que são luvas e é possível recuperar esse valor?

Luvas é o valor pago ao locador ou ao inquilino anterior para entrar em um ponto comercial já valorizado. Na contratação inicial a cobrança é legal, o valor não é restituível e não abate aluguel. Na renovação compulsória do contrato, a cobrança é nula pelo artigo 45 da Lei 8.245/91. Vale negociar as luvas dentro do pacote, trocando parte do valor por carência de aluguel durante a obra.

Quantos anos de contrato de locação comercial devo assinar?

Cinco anos sempre que possível. A Lei 8.245/91 garante a renovação compulsória ao locatário com contrato escrito por prazo determinado, cinco anos de locação, que podem ser a soma de contratos seguidos, e três anos na mesma atividade. A ação precisa ser proposta entre um ano e seis meses antes do fim do contrato. Contrato de dois ou três anos deixa o ponto exposto à decisão unilateral do proprietário.

Ponto comercial importa para quem só vende no delivery?

Importa, por outro motivo. Em operação de entrega, o que define a qualidade do ponto é quantos clientes estão dentro do raio viável, normalmente de 20 a 30 minutos de moto, e não o movimento de pedestres. Densidade residencial no entorno, acesso fácil para o entregador e ausência de barreiras como rios e viadutos valem mais que fachada. Por isso operações de delivery pagam aluguel bem menor que restaurantes de salão.

O que verificar em um imóvel antes de alugar para restaurante?

Verifique a carga elétrica e a rede trifásica, o caminho para o duto de exaustão e a autorização do condomínio, o ponto de gás, a caixa de gordura, os pontos de água e esgoto, a quantidade de banheiros exigida pelo município, a área fechada para lixo e o acesso para carga e descarga. Antes de tudo isso, faça a consulta prévia de viabilidade na prefeitura.